terça-feira, 22 de outubro de 2013

Falei pro DJ pra fazer diferente

Oi, tudo bem?

Essa mensagem é pra você, amiga da minha mãe. É, você que não me conhece muito bem mas me acha uma filha exemplar. Tô aqui hoje pra acabar com essa sua visão. Ou pelo menos parte dela.

Eu sei que você me acha um exemplo de jovem por ter "bom gosto" musical. Eu sei que você provavelmente gostaria que a sua filha também gostasse das músicas que você gosta que eu goste. Eu sei que você não usa com frequência a internet, mesmo tendo acesso irrestrito a ela. Eu sei que você não conhece a gama de tipos de jovens como eu. Eu sei que você restringe a minha geração a alguns estereótipos (alguns deles bons na sua cabeça, por mais que você vá negar isso, achando que estou usando a palavra "estereótipo" com uma ideia negativa)

A gente tava junto, esses dias. Eu, você, minha mãe e mais alguns alguéns, lembra? Então, eu fiz algum tipo de brincadeira e acabei cantando um daqueles funks brasileiros "antigos". Era uma música de 2000 ou 2001, talvez. Caráter machista nas entrelinhas, mas que eu achava hiper engraçada quando criança.

Foi automático. Eu praticamente declamei "dói, um tapinha não dói" e seu grito ecoou "Nossa! Uma menina que gosta de Beatles candando FUNK?" É, pois é. Eu gosto de Beatles e cantei um funk.

Sei que você deve achar isso um absurdo. E espero que deixe de achar depois desse texto -que eu sei que você não vai ler, já que você nem entra na internet e já que, com certeza, o meu blog abandonado seria o 793º site que você iria acessar-, mas eu, no fundo, mesmo torcendo pro inverso, prefiro que você continue achando um absurdo mesmo.

Vamos lá. Você não sabe, mas gostar de Beatles na minha idade não é nenhum diferencial. Quase todo mundo que eu conheço conhece Beatles. A maioria gosta. Outra parte gosta de umas músicas só. A minoria não gosta, mas conhece. Eu não sou exceção por gostar dos Beatles. Eu faço parte de uma maioria, pelo menos no meu círculo social.

Outra coisa que você não sabe: a minha mãe me ensinou desde pequena a conhecer todo e qualquer tipo de música. "Você precisa ouvir de tudo pra saber do que verdadeiramente gosta". E, amiga da minha mãe, foi mal, mas eu tento, tento e tento mas não consigo ouvir de tudo. Tem mais coisa por aí do que eu -e você, principalmente- sabemos. De qualquer forma, eu vivo no Brasil, eu moro no Rio de Janeiro. Não é porque eu gosto de Beatles (única referência que você usa pra se referir a mim como "uma menina de gosto muitíssimo exemplar") que eu vou fechar os ouvidos pro que me cerca.

Eu ouço funk sim, amiga da minha mãe. Eu posso não fazer download da música da MC Mayara ou da clássica -é agora que você morre do coração- Gaiola das Popozudas, mas eu conheço várias das músicas delas (mesmo que a MC Mayara tenha só uma). Eu gosto de Beatles mas conheço muitos funks, e nem por isso o meu gosto é "menos melhor". É simplesmente meu. Eu gosto de Beatles e gosto de alguns funks, nem por isso eu sou "cachorra". Eu só sou, no sentido sem clichês da palavra, eclética.

Não sei se você vai continuar me achando exemplar depois disso tudo. Mas eu gostaria que pessoas como você abrissem a cabeça pra multiculturalidade desse brasilzão de meu deus, que nem sempre vem com poesias maravilhosas e arranjos bem feitos, mas com o mesmo ritmo repetido e letras que você sempre taxa de machistas -e você também deveria saber que tem gente por aí tentando provar que muitas delas são altamente feministas-.

Bora curtir tudo quanto é música, querida?

Desligo aqui meu batidão, obrigada.

OBSERVAÇÃO: a autora dessa mensagem está aberta a indicações de músicas da MC Mayara, pois depois de ouvir "Teoria da Branca de Neve" perdeu qualquer vontade de procurar outras músicas. Bonde do Rolê não vale, é quase indie. Se quiser ganhar o coração da autora, favor mandar uma música do MC Marcinho.